Editorial
Cristiana Gallo*
“Uma a uma, resta a cada mulher reconhecer os modos de gozo
que lhe concernem para identificar-se, nem ao pai,
nem ao falo, nem à Outra, senão ao seu sinthoma, inigualável.”
Recorto esta frase do texto de Maria Josefina Fuentes apresentado nas Conversações do último Enapol e que trazemos neste número de Calidoscópio.
Este trabalho traça um percurso com valiosas contribuições para a nossa pesquisa atual, trazendo “algumas formas das novas virilidades que se apresentam como uma defesa contra o feminino na contemporaneidade”, dando oportunidade de caminhar pelas questões trazidas pelos eixos temáticos.
Também contamos com a leitura de Veridiana Marucio de importante conferência de Marie-Hélène Brousse, “Corpos lacanianos: novidades lacanianas sobre o estádio do espelho”, de onde se destaca um ponto inicial da incidência da ciência na psicanálise na formulação do estádio do espelho, para a atualidade em que a “ciência realmente mudou muito a relação que temos com nosso corpo como organismo e como imagem”.
Sigamos na leitura e no trabalho de elaboração de nossas questões para a Jornada!
*EBP/AMP
Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, / não sinto gozo nem tormento. / Atravesso noites e dias /
no vento.
A MULHER FACE AO ESPELHO: NOVAS VIRILIDADES
Maria Josefina Fuentes*
A virilidade norme-mâle na mulher
Na década de 30, o tema da sexualidade feminina girou em torno da questão se a identificação masculina da menina ao pai seria um obstáculo ou daria acesso à feminilidade. Enquanto Karen Horney e Ernest Jones defendiam uma identificação feminina que repousaria na vinculação inata e direta à mãe, em relação à qual a masculinidade seria uma defesa, Freud e algumas analistas como Hélène Deutsch, insistiam na primazia fálica como a normalidade para ambos os sexos – a norme-mâle, segundo o Witz de Lacan (Lacan, J. “O aturdito”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 480.) que evoca o normal (normal) e a norme mâle (norma masculina). Apesar das críticas feministas, Freud foi irredutível em relação à tese do falocentrismo no inconsciente que reconhece apenas um significante, o falo, para designar a dissimetria dos sexos, sendo que uma identificação própria à mulher é o que permanece ausente. LEIA MAIS

Se desmorono ou se edifico, / se permaneço ou me desfaço, / - não sei, não sei. Não sei
se fico / ou passo.
CORPOS LACANIANOS: NOVIDADES LACANIANAS SOBRE O ESTÁDIO DO ESPELHO
Veridiana Maruccio*
Marie Hélène Brousse inicia essa conferência dizendo que Lacan sempre se apoiou mais na ciência do seu tempo do que nas referências pertencentes ao mundo psicanalítico, e isso desde 1936, quando ele desenvolve a teoria do estádio do espelho. Nesse momento, ele se apoiava na etologia, na psicologia da criança e na gestalt.
Na etologia, a imagem assume o estatuto de um real. Lacan retoma o exemplo da maturação sexual da pomba, que somente desenvolve seus órgãos sexuais se exposta à imagem de um animal da sua espécie. O que interessa a Lacan, segundo Brousse, não é a imaginação, mas algo que tem um poder eficaz, consequências no real mais real, nesse caso, a reprodução.

Foi a partir dessa orientação que o estádio do espelho foi construído, pois a relação de uma criança com sua imagem no espelho tem as mesmas consequências reais que as demonstradas pela etologia para o reino animal.
O estádio do espelho foi desenvolvido em 1949, e Brousse propõe escrevê-lo de outro modo, considerando toda a leitura de Lacan que temos hoje. LEIA MAIS

Sei que canto. E a canção é tudo./ Tem sangue eterno a asa ritmada. / E um dia
sei que estarei mudo: / - mais nada.

Cecília Meireles, Motivo
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Boletim Calidoscópio #7está no ar!!!
CALIDOSCÓPIO - BOLETIM DAS JORNADAS DA EBP-SP
"CORPO DE MULHER"
Direção de Redação - Bernadette Pitteri
Revisão Crítica - Daniela Affonso
Edição e Montagem- Maria Marta Rodrigues Ferreira
Colaboração - Cristiana Gallo
Coordenação das Jornadas - Paola Salinas
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Diretor Geral - Rômulo Ferreira da Silva
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