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SANTA TERESA, HOJE1

Cynthia Farias*

No encontro entre a arte e a psicanálise é imprescindível recorrer a Lacan para afirmar que a arte sabe, sem a psicanálise, aquilo que a psicanálise ensina2. Principalmente quando o que está por ser dito é o que Lacan definiu como o impossível de dizer: o gozo feminino.

Representação máxima desse gozo que excede a norma fálica, Santa Teresa D’Ávila impôs sua experiência mística através dos séculos, como enigma aos que creem e aos que não creem. Impossível não se deixar fascinar pela mulher, empreendedora, escritora e poeta de rara inteligência. Deixou o conforto da família e o devotado amor de seu pai para   dedicar-se   à   vida  religiosa  tendo  como  causa  a  reforma  do 

 

Carmelo – Ordem das Carmelitas Descalças. Criticava fortemente a oposição entre a ação e contemplação, defendendo que encontramos Deus mesmo no trabalho mais ínfimo e trivial. “Entendei que até mesmo na cozinha, entre as caçarolas, anda o Senhor”3.

A peça A língua em pedaços em segunda temporada no Teatro Eva Herz4 traz a Santa, em toda sua exuberância, na esplendorosa interpretação da atriz Ana Cecília Costa. O texto de Juan Mayorga, baseado na autobiografia Livro da Vida, apresenta o encontro ficcional, na cozinha do convento, entre Teresa de Jesus e seu inquisidor.A pretexto de seguir as ordens para fechar o monastério, ele oferece a Teresa a oportunidade de falar sobre ela e sobre a natureza de sua experiência de conexão com Deus!

Num cenário simples, vemos circular a perversidade de uma época de intolerância às diferenças, assim como nos dias de hoje, onde Santa Teresa encarna a subversão da ordem. Com suas convicções religiosas e políticas, questiona o funcionamento do Convento da Encarnação, onde iniciou sua vida monástica e, consequentemente, da própria Igreja. Expõe seu inquisidor à sua experiência mística que experimenta em momentos dedicados ao trabalho e à oração. É nesse lugar cotidiano que testemunha em seu corpo as tensões entre o sagrado e o profano. Diante de um homem visivelmente angustiado – impecável interpretação do ator Joca Andreazza – tenta provar que é por meio do corpo, propenso ao pecado, que se alcança o êxtase. “Não somos anjos, ao contrário, temos corpo!”5, dizia ela em tempos em que ser anjo era sinal de elevada espiritualidade e o pecado pertencia à carne.

A forma como o corpo está incluído na experiência de Teresa com Deus interessou a Lacan e interessa aos psicanalistas por evocar a dimensão de um gozo feminino por excelência. Lacan dedicou seu Seminário XX, Encore, a esse gozo que se dá fora da norma fálica e sobre o qual nada sabemos. Ele se utiliza da imagem de Santa Teresa representada na escultura de Bernini para dizer: “... ela está gozando, não há dúvida. E do que é que ela goza? O gozo feminino se experimenta, mas nada se sabe dele”6.

Ao dizer que “A Mulher não existe” Lacan enfureceu feministas por evocar, à primeira vista, o falocentrismo freudiano no qual o inconsciente se funda. No entanto, essa afirmação decorre não propriamente da inexistência da mulher como ser pleno de direito, mas do fato de a mulher e seu gozo não poderem ser completamente cernidos pelos discursos. Ele afirma que “não há mulher, senão excluída pela natureza das coisas que é a natureza das palavras”7. Trata-se de um gozo suplementar àquele designado pela função fálica e embora não sendo correlato à anatomia, pertence ao corpo. É nesse sentido que Lacan se vale da experiência mística de Santa Teresa para tentar bendizer o impossível de ser dito.

Indizível por sua própria natureza, tal gozo produz horror, angústia e fúria aos que a ele são confrontados. As mulheres, por serem mais propensas a acessar esse gozo suplementar, tornam-se alvo preferencial da intolerância e da violência que visam a aniquilar a diferença radical que esse gozo encerra. Todavia, o gozo feminino não é um privilégio exclusivo das mulheres. Lacan, no Seminário XX8, recupera a figura de São João da Cruz, místico contemporâneo e amigo de Santa Teresa, por ter sido homem capaz de acessar o gozo feminino. Assim, o feminino lacaniano rompe com a anatomia e as questões de gênero, designando uma satisfação “suplementar” e não “complementar”, que não se fecha jamais em um todo.

Decorre disso que, para o “ser falante”, na expressão de Lacan, masculino e feminino são semblantes, lugares vazios que podem ser ocupados oportunamente, independente de gênero. Com um discurso carregado de metáforas potentes, Santa Teresa expõe seus argumentos com clareza e certa dose de humor, transitando com incrível desenvoltura entre esses lugares, as posições feminina e masculina. Estamos ora diante de uma mulher viril e perspicaz com as palavras, ora vemos Teresa envolta em divagações e mistérios, falando de cruzes que inexplicavelmente se transformam por obra de Deus em joias diante de seus olhos.

O inquisidor, perplexo, duvida que Santa Teresa seja movida pelo amor a Deus, atribuindo sua vocação à vaidade, ao egoísmo e à sede de poder. Fiel à norma fálica, não lhe resta senão justificar a posição ousada e irônica da Santa de forma prática e racional. A experiência mística fica desvalorizada como pura sedução, farsa e manipulação, habilidades tidas como comuns às mulheres e ao demônio.

A atriz Ana Cecília se entrega completamente a essa personagem, que passa do masculino ao feminino, sem cair no ridículo, ou sem transmitir a falsa impressão de uma figura desvairada. Santa Teresa não era louca justamente por saber intuitivamente que masculino e feminino são semblantes, identificações incapazes de traduzi-la. O que interessava a Santa Teresa era o que estava além das identificações e, por isso, podia vesti-las e desvesti-las sem pudor.

Em cena, a intrincada tecitura discursiva inicial esgarça-se aos poucos, deixando transparecer o imponderável da experiência mística da Santa. Exauridos pelo embate de ideias, Teresa e seu inquisidor depõem as armas. Nada mais pode ser dito. A língua está em pedaços. Somos, então, arrebatados pelo êxtase místico e conduzidos ao auge da transverberação a qual Santa Teresa se entrega, tal qual a imagem de Bernini. “Essas jaculações místicas, não são lorotas nem só falação”9, diz Lacan. É certo que o que move Teresa em sua causa é a experiência mística que ela acessa pelo recolhimento, pelo silêncio da oração interior. Contudo, Teresa não a mantém nos recônditos de sua alma. Ela escreve, em prosa e poesia, a experiência suprema que justifica seus atos, produzindo consequências extramuros. Duramente perseguida, foi denunciada pelo núncio apostólico como “mulher inquieta, errante, desobediente e contumaz”. A posteridade a reconheceu como Doutora da Igreja.

Se Santa Teresa subverteu ao colocar seu corpo em cena como prova da existência de Deus, maior subversão ainda foi sua devoção inquebrantável a seu gozo. Enfrentou a tudo e a todos para construir monastérios capazes de acolher sua peculiar relação com Deus. Essa foi sua bandeira. Deus foi o conector entre ela e seu gozo, em suas palavras,

seu esposo. Seu êxito foi positivar no mundo, por meio da escrita e da vocação religiosa, sua diferença radical.

 

*EBP/AMP

 

Sobre Aquelas Palavras: Meu Amado é meu e eu sou Dele10

Entreguei-me toda, e assim/ Os corações se hão trocado:/ Meu Amado é para mim,/E eu sou para meu Amado.

Quando o doce Caçador/ Me atingiu com sua seta,/ Nos meigos braços do Amor/ Minh'alma aninhou-se, quieta./ E a vida em outra, seleta,/ Totalmente se há trocado:/ Meu Amado é para mim,/ E eu sou para meu Amado

Era aquela seta eleita/ Ervada em sucos de amor,/ E minha alma ficou feita

Uma com seu Criador./ Já não quero eu outro amor,/ Que a Deus me tenho entregado:/ Meu Amado é para mim,/ E eu sou para meu Amado

 

NOTAS

 

1Este texto foi produzido a partir da peça “A língua em pedaços” e do encontro com os atores e o público para a Atividade Preparatória das Jornadas da Escola Brasileira de Psicanálise - São Paulo (EBP-SP) 2015, “Corpo de Mulher”, em 17 de outubro de 2015.

2Lacan, J. (1965-2003) Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 200.

3Santa Teresa D’Ávila, Livro das Fundações, cap. V, 7-8. Shalom

4“A língua em Pedaços”, texto de Juan Mayorga baseado na autobiografia de Santa Teresa D’Ávila, com Ana Cecília Costa, Joca Andreazza e direção de Elias Andreato. Teatro Eva Herz. www.teatroevaherz.com.br

5Santa Teresa D’Ávila (2010). O livro da vida. São Paulo: Coleção Penguin, Companhia da Letras.

6Lacan, J. (1972/73-1985) O Seminário, livro 20, encore. Rio de Janeiro: Zahar, p. 103.

7 Idem, ibidem, p. 99.

8 Idem, ibidem, p. 102.

9 Idem, ibidem, p. 103.

10http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/538633-a-poesia-das-caricias-entrevista-especial-com-luciana-barbosa

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