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FRIDA KAHLO: MAIS ALÉM DO PRÓPRIO SOFRIMENTO

Leny Mrech*

A história de Frida Kahlo é atualíssima. Está na crista da onda. Sua exposição, em São Paulo, retrata muitos dos momentos de sua vida extremamente angustiada e infeliz.

Nascida Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon foi uma grande vanguardista de sua época, sendo feminista antes do próprio feminismo. Seu pai era um fotógrafo famoso - Guillermo Kahlo - e sua mãe, Matilde Calderon y Gonzales, uma mestiça.

Pode-se dizer que, de cada um dos genitores, Frida extraiu traços marcantes que ressurgiriam ao longo da sua obra: os retratos quase fotografias, e a dedicação à cultura do seu povo. É nela que podemos encontrar não apenas um corpo falante, mas um corpo que gritava a plenos pulmões.

A sua vida foi marcada por inúmeros problemas físicos e trinta e cinco cirurgias. Aos seis anos teve poliomielite, que deixou várias sequelas: um dos pés atrofiados e uma perna mais fina do que a outra. Frida escondia essas condições físicas em amplas saias rodadas, com desenhos que a tornavam uma pessoa extremamente exótica. Apresentava-se, também como uma mulher do povo.

Momentos de virada: o encontro com o real

Aos dezoito anos, quando estudava medicina, ela e o seu noivo Alejandro Goméz Arias, tiveram um grande encontro com o real. Ambos sofreram um acidente de ônibus. No caso dela foi mais grave, deixando-a às portas da morte. Uma barra de ferro transpassou o seu abdômen, saindo pela vagina, tece múltiplas fraturas, inclusive na própria coluna vertebral.

Deve-se ao seu pai a sua introdução na pintura. Ele lhe deu o cavalete e as tintas que usava em seus momentos de descanso, para que ela começasse a pintar nesse período. Em relação a ele Frida dizia: Meu pai foi para mim um grande exemplo de ternura, de trabalho... e acima de tudo de compreensão de todos os meus problemas.

O que chamou a atenção de todos foi que ela não teve uma formação artística, aprendendo, na prática, a fazer retratos. Um espelho foi colocado em um lugar estratégico, acima da sua cama, para que ela pudesse ver o que estava pintando. Ela utilizava esse aparato em suas inúmeras cirurgias.

O seu primeiro retrato surgiu ao ser abandonada pelo noivo – O Auto-retrato com vestido de veludo.

Ela dizia que pintava sempre ela mesma – foram 55 quadros – pois era sozinha e era o assunto que conhecia melhor.

Um pouco depois da recuperação da cirurgia, ela fez questão de conhecer o pintor Diogo Rivera, pedindo que analisasse os seus quadros. Um contato inicial que acabou por desencadear uma paixão que durou por toda a vida. Com relação ao marido, ela revelava: Diego está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.

Diego foi o seu parceiro-sintoma. Ao mesmo tempo em que o censurava por ele a trair, não conseguia deixá-lo de lado por muito tempo. Foram inúmeros os momentos em que eles se separaram e voltaram a ficar juntos.

O seu desejo maior é que ele a visse, que se envolvesse com ela. Se eu pudesse lhe dar alguma coisa na vida, eu lhe daria a capacidade de ver a si mesmo através dos meus olhos. Só então você perceberia como é especial para mim.

Diego foi o seu parceiro-devastação. Em uma de suas frases célebres ela dizia: Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o ônibus e você.

Uma devastação emocional acompanhada pela devastação física. Ela teve que amputar os dedos dos pés e a perna, levando-a a se perceber em inúmeros momentos de forma desintegrada. Eu sou a desintegração.

Mas, através da sua pintura ela ultrapassava esse processo, ao dizer: Pés, para que os quero, se tenho asas para voar? E aconteceram os voos trazidos pela sua pintura aos grandes centros mundiais. Primeiramente acompanhando Diego aos Estados Unidos da América, à França, etc. E depois tendo os seus trabalhos divulgados no mundo todo, inclusive antes de seu próprio país.

Pode-se dizer que Frida Kahlo conseguiu construir o seu escabelo. Uma vida que ultrapassou a própria vida através de sua pintura e que a fez ser reconhecida como a maior pintora mexicana.

Um escabelo que ela construiu para se posicionar na vida. Algo que a posicionou diante de si mesma através de suas pinturas e de seus amores, ao possibilitar que ela viesse a ocupar um lugar especial na cultura. Um lugar que ultrapassou o seu próprio desejo de desaparecer: Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais regressar.

Frida Kahlo é um dos ícones da cultura contemporânea. Alguém que se fez presente em todo o seu sofrimento, mas em todo o seu processo criativo.

 

*EBP/AMP

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