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ANATOMIA

 

Veridiana Marucio*

No intuito de levantar questões que possam conversar com o tema da nossa próxima jornada da EBP-SP, Corpo de Mulher, fui convidada a fazer uma reflexão a respeito do vídeo Atlas élémentaire d'anatomie! (https://www.youtube.com/watch?v=U-jegbXC270&authuser=0).

 

O avanço da ciência e a lógica de consumo da sociedade atual afetam a relação do sujeito com o corpo: o culto à imagem atrela sucesso, felicidade, aceitação a um corpo ideal. Soma-se a isso o discurso publicitário, que promete um corpo perfeito, eterno, jovem.

 

O sonho de controlar o envelhecimento pode agora sair dos filmes e de certa forma se aproximar da realidade do sujeito hipermoderno. O impasse da transitoriedade do corpo também não deixa de se impor como um enigma. Le Breton (Le Breton, D. Adeus ao corpo. Antropologia e Sociedade. Campinas, S.P.: Papirus, 2003.) diz que esse comportamento de cultuar o corpo esconde um ódio ao corpo real, que lembra a finitude, a morte.

Como consequência desses fatores, percebemos um aumento de sujeitos que se sentem impelidos a adequar seu corpo a um padrão de beleza, e que, paradoxalmente, se perdem no anonimato. Transformam-se em mais um ao modelar seu corpo tendo em vista um ideal.

 

As cirurgias plásticas não são um procedimento recente no campo da medicina estética, mas nas ultimas décadas passaram por avanços importantes, deixando de ser exclusivamente reparadoras para serem modeladoras: as lipo esculturas, que praticamente fabricam um novo corpo.

Além disso, temos hoje procedimentos como mudança de sexo e redução de estômago, que ao mudarem a relação do sujeito com o corpo, alteram a relação com a própria imagem – relação esta que sabemos, através do discurso da psicanálise, ser sempre problemática. O corpo depende do significante para ser unificado, e essa operação não é plena. Resta algo de fragmentado, que insiste, aparecendo no nível fantasmático.

 

Para defender-se desse real traumático, o que fazem os sujeitos hoje? Quais são as ficções que se fabricam quando o que está em jogo não é somente a busca do corpo perfeito, mas construir um corpo cada vez mais distante do copro real, inalcançável, imortal?

O fotografo Phillip Toledano (http://www.mrtoledano.com/a-new-kind-of-beauty ) tem um série intitulada “A New Kind of Beauty” (Um novo tipo de beleza) que possui muitos traços de um trabalho tradicional, mas seus modelos estão longe de serem comuns, e penso que isso conversa com a questão levantada acima.

 

Toledano documentou pessoas que passaram por um processo radical de reconstrução corporal, com no mínimo 30 cirurgias acumuladas. Questionado sobre seu projeto, ele responde: “Em 50 ou 100 anos, eu acho que a humanidade não vai parecer com o que se parece agora por conta da tecnologia. (...) seremos capazes de redefinir o que significa parecer humano e eu acho que essas pessoas são a vanguarda desse tipo de evolução”.

 

Seu interesse nesse trabalho é pensar como definimos a beleza, quando há a escolha de se reconstruir um corpo, de criarmos o corpo nós mesmos.

 

“Agora que finalmente o ser humano tem os meios tecnológicos, que escolhas serão feitas?”

Finalizo com outra citação de Le Breton “O corpo é um acessório a ser retificado, um anacronismo indigno, um vestígio arqueológico que deve ser levado a desaparecer para se alcançar a perfeição tecnológica, longe da doença, da morte, da deficiência”.

 

 

*EBP/AMP

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